sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Outra vista no Visto, Visto que...

Rose Siepamann*

Não existe certo, nem errado/ todo mundo tem razão
o ponto de vista é que é o ponto da questão (Caio Gomes)


“Às vezes você tem que se sentir mal, para depois sentir-se melhor”, alguém já disse. É mais ou menos esta mensagem de vida, ou vida na mensagem que eu gostaria de expressar. Há coisas que palavra alguma no mundo pode descrever, a dor por exemplo, o medo, a vergonha. Muitos grandes poetas chegam perto talvez, mas não conseguem medir ou pesar estes sentimentos porque o sentir não se conta com palavras.
Eu nem ouso querer explicar a frustração e desconforto porque são complexos demais, mas quero narrar um desses momentos em que temos sentimentos e nos frustra o fato de não encontrar os vocábulos exatos para que o que nos ouvem ou para possa sentir na medida aproximada o que gostaríamos que sentisse.
No mês passado eu aguardava meu querido Miguel Nenevé no aeroporto de Colorado Strings. Depois de quase dois anos prometendo que viria me visitar eu resolveu “to show up”. Eu estava ansiosa pra mostrar meu mais novo estilo de vida, a cidade e tantas outras coisas. Não tive que esperar muito! De longe reconheci seu caminhar, sua camiseta da universidade e sua mochila verde. Foi muito emocionante reencontrá-lo. Como nos faz sentir bem, estar com alguém que conhecemos e confiamos! Se você já teve esta experiência então poderá saber do que estou falando, porque as palavras... essas eu comecei usar de montão pra contar de como eu estava, minha vida, meu cabelo ..and so on and so forth. Também queria saber de minha mãe do meu pai, dos meus irmãos e irmãs e da família em geral. E como estava seu pai e os seus. Nossa cidade, os cachorros, a inflação se tinham terminado o viaduto e se o novo governador era bom mesmo ou só papo-furado. E da Dilma, claro!
O Miguel sempre muito educado ia respondendo a cada questão e sendo interrompido por mim com mais perguntas, vocês sabem como um assunto leva ao outro! Eu só me distraia um pouco com o GPS que agora é meu companheiro constante sempre que saio da cidade onde moro! Quando finalmente perguntei como havia sido a viagem o Miguel hesitou um pouquinho e meu olhou com uma carinha de desapontamento que eu descrevo como: os olhos parados com pouco brilho, uma leve franzida de nariz e a boca apertada. “foi tudo bem, mas eu tive um problema chato na hora de entrar no país, no Texas”. “Nossa, por quê? Eu perguntei espantada, porque sabia que ele sempre esteve viajando por todos os lados em países diversos e que inclusive já estivera trabalhando nos Estados Unidos”!”Aiai estes americanos ja estão se passando”, comentei desapontada. “Pois é! Foi muito chato porque eles me detiveram por tanto tempo que eu perdi o vôo! “Mas por quê? Interroguei de novo, como se fosse preciso! Esse é um dos meus defeitos, andar interrompendo as pessoas no meio da conversa. “disseram que eu não tinha visto pra entrar nos país, que eu estive muito tempo na Guyana e até que eu me parecia com árabe! Nessa hora eu ri! O Miguel não tem nenhuma pinta de árabe:. Alto, pele branca, olhos verdes, careca e dentro do peso recomendado pelos médicos. Lógico que seria muita ignorância minha dizer que nos países árabes não encontraremos ninguém com estas características, mas quanto ao Miguel dá pra ver logo que ele é descendente destes alemães vindos ao Brasil no século passado... mas os agentes da imigração não sabiam disso e quem sabe nem desconfiem que no sul dos nossos pais há muitos alemãezinhos, polacos, italianos, holandeses e outros mais.
À medida que ele ia me contando eu ia ficando com mais raiva e alimentando a dele também. Mas que absurdo! Que gente mais desconfiada! Que povo sem consideração! “Ainda mais com você que vem a convite da universidade de Nem México para uma palestra, com visto, com número de seguro social, com milhas de referências. Você mostrou seu social security?” “Nao, não me lembrei, mas eu mostrei a carta do pessoal da universidade, expliquei direitinho! “E mesmo Assim? Que eles pensam que são?”
Esse pessoalzinho não tem coração, são frios e tão incompreensíveis” exagerei. “Pois é eu já estava muito nervoso, faziam mil perguntas, ate que veio uma cara lá de dentro, um supervisor e disse que iam me dar um visto especial pra que eu pudesse passar pelo menos um mês no país sem ter problema, e no final me agradeceu e tudo mais, mas eu saí de lá ainda ressabiado porque eu tinha tudo em dia!!!!
Quando chegamos a casa ainda pairava aquele climinha de “ que é isso” e eu comentei que talvez fosse que o visto não era pra trabalho e como a universidade ia pagar pela palestra eles estavam criando caso. O Miguel então considerou esta hipótese, mas mesmo assim a raiva não se dissipava.
Os dias correram como sempre fazem quando “you are having fun” e um pouco antes do seu regresso fomos dar uma olhada na passagem, no passaporte e nos ocorreu averiguar o visto...Oh my gosh!!! “teu visto é de trânsito!!!” Ali estava a “abditae causae”, a causa escondida. “Não tirou o visto pra permanecer no país, apenas pra passar por ele!!!” Era o visto de trânsito quando estava na Guyana e viajava para o Canadá, descendo nos Estados Unidos só para trocar de avião!
“Poxa então...?” “Sim, você teve foi muita sorte!
“Até que tem gente de bem no departamento de imigração dos aeroportos” Que agente legal aquele! Concordamos afinal.


• Rose Siepamann – Professora de Língua estrangeira e artista plástica. Vive entre P Velho e Colorado (EUA)



quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Representações da Mulher Brasileira: estereótipos, fantasias e violência. Por Miguel Nenevé

Recentemente estive na Universidade de New Mexico, nos Estados Unidos como pesquisador visitante e um dos palestrantes que o Institute of Latin American and Iberian Studies convida durante o ano. Ao me dirigir para a universidade naquela manha, o motorista do ônibus que o hotel gentilmente me oferecia para ir à universidade, me perguntou: “ Sobre o que será a palestra? Sobre a beleza da mulher brasileira? “
Logicamente este pergunta pode irritar a qualquer um pela maneira de que é perguntada. A mulher brasileira se destaca pela beleza e charme em todo o mundo, claro. No entanto, é cansativo e irritante a um brasileiro sentir que a ignorância de algumas pessoas fazem pensar que um professor universitário, sendo do Brasil, só poderia falar sobre mulher brasileira. Ademais, há sempre aquela conotação de mulher brasileira ser objeto fácil, ser um produto á venda para pessoas que vivem numa sociedade mais puritana. Como argumenta Edward Said em Orientalismo , criou-se a fantasia do permitido, no outro mundo, no “Oriente” ou no “Sul” a assim asocia-se constantemente a colônia como o local onde há liberdade sexual e as mulheres que ali habitam não precisam ser respeitadas como no “Ocidente” ou no mundo “dos civilizados.” No imaginário de um americano comum ainda persiste aquela visão do europeu sobre a mulher não européia. Se voltarmos bem ao inicio da colonização, ou antes, ainda vamos ver que Américo Vespúcio , (como nos informa Afonso Arinos em O Índio brasileiro e a revolução francesa) em sua famosa “carta Mundus Novus” se referia à mulher da América como “ muito bela”. Mas não pára na beleza, ele precisa estimular a fantasia das pessoas do “Primeiro Mundo’ e complementa: “sua luxúria excede à imaginação humana. O homem possui quantas desejar.” Portanto, os relatos dos viajantes da Europa sobre os “outros” e mais tarde dos países “desenvolvidos” sobre os “subdesenvolvidos” ajudaram a solidificar os estereótipos do Brasil e da mulher brasileira. Acrescente-se a isso a literatura e a publicidade em nosso próprio país que ao longo do tempo foram construindo a imagem do “paraíso” tropical, o paraíso que foi perdido no “Primeiro Mundo.” Este estereótipo vai permacendo e a condição de colônia, de dependência de “países superiores” com certeza ajuda a manter esta visão. Assim a mulher brasileira é ainda associada à “mucama” , a amázia escrava que era objeto de prazer dos “senhores.” E temos que convir, muitas vezes o conceito é alimentado por empresas de turismo, por próprias brasileiros e brasileiras. Algumas empresas ou pessoas lucram com isso ou pensam que lucram e continuam a espalhar o discurso que a mulher brasileira pode ser tratada como objeto. Ademais, a publicidade de empresas de turismo , às vezes até com o apoio da EMBRATUR também colabora para expor ao mundo este produto brasileiro, a mulher como objeto sexual , em posiçao de dependeência ou como incompetente. Há mulheres brasileiras, trabalhando no exterior, que divulgam suas próprias fotos sensuais aos “superiores” do país onde vivem para estimular a imaginação e fantasia dos “colonizadores” e sustentar a crença que estuprar uma mulher de “Terceiro Mundo” não é tão criminoso como estuprar uma mulher de seu “Primeiro Mundo.”
Felizmente este estereótipo eu vi presente em um americano comum, um motorista, e não um professor universitário, por exemplo. Ainda existe no imaginário de uma pessoa sem muita educação, a idéia de que nada que se produza ou que se investigue por um brasileiro tenha valor científico, que possa ser ensinado a um americano.
Por isso que demorei em lhe dar uma resposta. A primeira reação foi rir com ironia, que não sei se ele entendeu, para ganhar tempo. Não queria dar uma resposta mal elaborada, afinal minha palestra era exatamente sobre o discursos que os que se consideram “superiores “ têm sobre os ”inferiores.” Eu iria discutir justamente como os estereótipos e preconceitos “die hard”, (morrem com muita dificuldade) pois vêm desde os tempos de colônia. Precisava dizer, talvez sem demonstrar raiva que a nova mulher brasileira, é inteligente, crítica, e que detesta ser objeto de consumo. Poderia lhe lembrar que, como diz Marcos Cobra, em “Marketing Turístico (2002), “durante anos as feministas tem expressado desagrado com relação a estes estereótipos...não apenas como símbolo de desejo, mas como objeto de consumo.”
No entanto, comecei respondendo que concordava que era muito mais fácil encontrar mulher bonita no Brasil que nos Estados Unidos. Também lembrei a ele que a mulher mais bonita que tinha visto ate então por ali, era uma brasileira, mas que além de bonita era muito inteligente e detestava homem ignorante e preconceituoso. Falei que nós brasileiros nos orgulhamos de ter as mulheres mais bonitas do mundo, isso é fato. Porém , se fosse falar da mulher brasileira poderia estar falando da Clarice Lispector por exemplo “an avant-garde Brazilan writer, writing in favor of women´s rights.” Outras tantas mulheres brasileiras que poderima ser assunto da palestra tais como Rachel de Queiroz, Adélia Prado , Ana Miranda, Gilka Machado, Diva Cunha, Myriam Fraga e Helena Parente Cunha entre muitas outras. Poderia falar de nossa presidente da República, que em breve estaria abrindo a assembléia da ONU, (brasileira que a revista Newsweek escolheu para figurar em sua capa). Sim a mulher brasileira Dilma que sem discurso feminista vem desmantelando preconceitos. Resumindo, poderia falar da mulher brasileira, não somente por sua beleza, mas mais que isso por sua inteligência, sua coragem, sua bravura visível em tantos exemplos.
Concluindo, o retrato da mulher brasileira incorpora uma série de estereótipos, alguns degradantes, outros nem tanto. O que é preciso desmantelar e vem se desmantelando aos poucos é esta imagem da mulher brasileira como uma colônia, uma “mina de pedras preciosas” que somente pode ser observada como algo para dar prazer e lucro ao colonizador. Embora não pareça à primeira vista, estes conceitos de mulher brasileira como objeto de desejo estimula também a violência contra a mulher, que como uma colônia pode ser invadida, explorada, desvirginada estuprada etc. Não se pode combater a violência contra a mulher sem combater estes estereótipos. Apliquemos leis como Maria da Penha, façamos campanha, mas comecemos a desconstruir discursos e estereótipos que à primeira vista são “agradáveis” mas que acabam sendo muito prejudicais. Felizmente a nova mulher brasileira esta mostrando competência para desmantelar preconceitos e destruir estereótipos.
(JORNAL DIARIO DA AMAZONIA no dia 20 de setembro de 2011)

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

LAII Features Brazilian Speaker

AUGUST 3, 2011 | By CAROLYN GONZALES

Miguel Nenevé

Latin Amer­i­can and Iber­ian Insti­tute Vis­it­ing Scholar Miguel Nenevé presents, “Travel-writing on the Ama­zon in the Nineties,” Mon­day, Aug. 22, at noon at the LAII, 801 Yale NE, on the main UNM campus.

Nenevé is a pro­fes­sor in the Depart­ment of For­eign Lan­guages at the Uni­ver­si­dade Fed­eral de Rondô­nia, Brazil.

After the death of Chico Mendes at the end of 1988, many for­eign writ­ers, crit­ics, jour­nal­ists and pho­tog­ra­phers flocked to the Brazil­ian Ama­zon in order to divulge to the world “the burn­ing of the Ama­zon,”, the “fate of the for­est,” the “burn­ing of the world,” and many other warn­ings about the region. In his research and this pre­sen­ta­tion, Nenevé ana­lyzes how this dis­course some­what repeats the colo­nial dis­course present in many pre­vi­ous writ­ing on “the cen­ter against the periph­ery,” “the empire over the colonies,” or even “Europe over America.

Nenevé will research UNM Uni­ver­sity Libraries’ excel­lent col­lec­tion of travel writ­ings on the Amer­i­cas. He, and his uni­ver­sity, are inter­ested in widen­ing the research per­spec­tives for their mas­ters stu­dents in Ama­zon­ian stud­ies and travel writ­ing on the Ama­zon and the Americas.

Media con­tact: Car­olyn Gon­za­les, 277‑5920; e-mail: cgonzal@unm.edu
http://news.unm.edu/2011/08/laii-features-brazilian-speaker/

quinta-feira, 5 de maio de 2011

RIO

para
ver
se o rio
ri
para mim

num dia

sombrio

sem brio
Sem sol
sem brilho
sem
Você
aqui.
O rio desligado desliza

(Miguel Nenevé)

segunda-feira, 7 de março de 2011

Dia Internacioanl da Mulher. Celebremos com "l´ecriture feminine"

Nós, mulheres
Rose Siepamann

“To comprehend a nectar/ Requires the sorest need." (E Dickinson)

Relendo um jornal antigo que encontrei enquanto fazia faxina em uma das gavetas da cômoda, notei surpresa que a autora era a consagrada Isabel Allende. O jornal é “POPULAR Newspaper” edição do dia 21 de Abril de 2010 que é vendido em todo Estado de Colorado. O artigo tem como titulo: Carta de una Mama a Sus Hijos” . Tentarei repassar a mensagem porque apesar de obvia, é importante as vezes que alguém ou algo nos lembre o que é ser mãe. Assim começa Allende: Siempre que quieren hablar de madres en la television muestran mujeres con chicos en los brazos, sonrientes, dulces, carinosas, sin una pizca de cansancio, esplendidamente maquilladas y a eso agregan maravillosas frases de posters. !! Mentiras!!!
Quem já é mãe ou mulher já sabe que a autora tem toda razão. Usando a linha de raciocino ainda de Allende: Nos mães não somos mulheres abnegadas amantes do sacrifício, guerreiras sempre. Nos mães choramos abraçadas a almofada quando ninguém esta por perto pra nos ver, pedimos peridural na hora do parto para amenizar a dor, detestamos ter que colocar o despertador as duas da manha pra buscar o filho na festa. Não gostamos quando a professora baixa a nota dos nossos rebentos só porque ele(a) não sabe onde fica o Aconcagua, afinal a quem isso importa? Mas, não podemos dizer nada!!!
Não é que adoramos ficar horas na cozinha pra preparar um peixe que não tenha cheiro de peixe e dissimulando os legumes e as verduras pra que nossos filhos comam e cresçam como deve ser.
Não é que nos preocupemos se estão na chuva ou não, é que não queremos que adoeçam. Não é que los amamos mais quando se banham... é que não queremos que os outros os chamem de “sujinhos” .
Mãe não tem a ver com fraldas, gravidez e sorriso de aspirante. Tem a ver com Querer a Alguém mais do que a nos mesmas. É fazer qualquer coisa para evitar que vocês filhos (as) sofram... nada, nunca, jamais.
Quando chegam correndo porque se machucaram o pezinho, permitindo que nos demos consolo, quando nos fazem um elogio, nos fazem melhores.
Ate passamos a cantar as canções da Xuxa ou ouvir rock em alto volume mesmo que estes estilos passam longe do nosso gosto musical. Estudamos a tabuada repassando umas 500 vezes para que aprendam, vamos ao futebol, as festinhas de crianças, ao balé, ao teatrinho da escola, ao medico, ao dentista, comprar calças, uniformes, mochilas, borrachas coloridas e jogos de “play station”.
A cada manha lavamos o rosto ou saímos do banho com um sorriso de orelha a orelha para fazê-los saber que a vida é boa, mesmo que as coisas estejam indo de mal a pior.
Buscamos outro trabalho, compramos livros, estudamos, vamos ao psiquiatra, ao pediatra, negociamos com os credores e com os professores, ajudamos no dever de casa. Embelezamo-nos, nos irritamos, rimos, choramos de bruxas nos convertemos em fadas, somente para vê-los felizes. Vê-los felizes nos faz felizes. Que bom seria se pudéssemos em apenas um estalar de dedos fazer com que o mundo fosse melhor!
Obrigada filhos por nos fazerem tão importantes.
Obrigada pelos abraços e beijos, pelos dentes de leite, pelos cartões e cartinhas com desenhos dependurados na geladeira. Pelas muitas noites sem dormir, pelos boletins, pelas plantas quebradas no jardim durante os jogos de bola, pelo meu estojo de maquiagem arruinado, pelas fotos das festinhas de São João.
Tudo isso são nossas medalhas! Obrigada pelo teu amor. E é isso que nos faz grandes,